Mensagens reveladas pela Polícia Federal mostram assessora de Flávio Bolsonaro negociando R$ 199 mil em emenda parlamentar com Robson Calixto, condenado pelo STF por integrar a organização criminosa ligada aos mandantes da morte de Marielle Franco.
Há histórias que não podem ser esquecidas, e a história de Marielle Franco é uma delas.
As novas revelações envolvendo o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro mostram que, oito anos depois do assassinato da vereadora, as conexões entre política, dinheiro público e personagens ligados às milícias do Rio de Janeiro continuam aparecendo.
Em 2023, uma assessora de Flávio negociou a liberação de uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil com Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”.
Calixto não é apenas mais um personagem do submundo das milícias.
Em fevereiro de 2026, ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão por integrar uma organização criminosa armada ligada aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, condenados pelo planejamento dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes.
E foi justamente esse homem que apareceu negociando recursos públicos com o gabinete de Flávio Bolsonaro.
Quem foi Marielle Franco?
Marielle Franco foi uma mulher negra, cria da Maré, socióloga, defensora dos direitos humanos e vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL.
Sua trajetória política foi marcada pela defesa das populações das periferias, pelo enfrentamento da violência e pela fiscalização das políticas de segurança pública. Marielle conhecia de perto os problemas provocados pela violência e pelo domínio territorial de grupos armados.
E não ficou calada.
Ela trabalhou na CPI das Milícias, investigando a atuação desses grupos no Rio de Janeiro. Como vereadora, continuou denunciando violações de direitos e acompanhando a atuação das forças de segurança.
Em fevereiro de 2018, poucos dias antes de ser assassinada, Marielle assumiu a relatoria de uma comissão da Câmara Municipal destinada a acompanhar a intervenção federal na segurança pública do Rio. Ela também havia denunciado publicamente ações violentas da Polícia Militar contra moradores de comunidades.
Marielle estava, portanto, fazendo aquilo que deveria ser obrigação de qualquer parlamentar: fiscalizar o poder, defender a população e denunciar abusos.
Até que a mataram.
Na noite de 14 de março de 2018, Marielle saiu de um evento na região central do Rio de Janeiro.
Anderson Gomes dirigia o carro.
Os dois foram perseguidos.
Na Rua Joaquim Palhares, no Estácio, os assassinos dispararam 13 vezes contra o veículo.
Marielle foi atingida por quatro tiros na cabeça.
Anderson também foi morto.
A assessora que estava no carro sobreviveu.
Durante anos, a pergunta permaneceu:
Quem mandou matar Marielle?
A resposta demorou, mas começou a aparecer.
A Justiça chegou aos mandantes
Em fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou Domingos Brazão e Chiquinho Brazão pelo planejamento dos assassinatos de Marielle e Anderson.
Também foram condenados Robson Calixto, o “Peixe”, por integrar a organização criminosa, e outros envolvidos na trama. A decisão do STF estabeleceu judicialmente a existência de uma organização criminosa relacionada ao crime.
A investigação apontou que a atuação de Marielle contrariava interesses ligados à exploração imobiliária e à ocupação de territórios por grupos criminosos, ou seja: Marielle não foi assassinada por acaso.
Sua atuação política contrariava interesses poderosos. Ela enfrentava estruturas que lucravam com a ocupação ilegal de territórios e com a influência das milícias na política e na economia do Rio de Janeiro. E foi justamente nesse universo que apareceram os responsáveis condenados pela Justiça.
Agora, surge Flávio Bolsonaro
É nesse ponto que a nova revelação precisa ser discutida.
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular de Robson Calixto mostram que ele mantinha contato com uma assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro. Em uma das conversas, Calixto pede que ela veja com o senador se poderia ajudar o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, o IFOP.
A assessora responde que ele poderia formalizar o pedido.
Depois, a emenda foi destinada.
Valor: R$ 199.999,79.
O dinheiro deveria financiar o projeto “Jogadores do Futuro”, voltado para crianças na Taquara, no Rio de Janeiro. O problema é que a história não termina aí.
Segundo reportagem baseada em documentos da investigação, o Tribunal de Contas da União identificou indícios de irregularidades na execução dos recursos, inclusive porque a empresa contratada para coordenar o projeto tinha como responsável o próprio presidente do instituto.
Flávio Bolsonaro afirma que a emenda foi destinada dentro da legislação e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte e que, após o repasse, a responsabilidade pela execução seria da entidade beneficiária.
Mas é preciso fazer uma pergunta: por que um homem que posteriormente seria condenado pelo Supremo Tribunal Federal por integrar a organização criminosa ligada aos mandantes da morte de Marielle estava negociando diretamente com uma assessora do gabinete de Flávio Bolsonaro a liberação de dinheiro público?
Não é um episódio isolado
O nome da família Bolsonaro aparece há anos em histórias envolvendo personagens ligados às milícias do Rio.
Um dos casos mais conhecidos é o de Adriano da Nóbrega, apontado pelas investigações como chefe de um grupo miliciano e morto em 2020. Familiares de Adriano foram empregados no gabinete de Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, também tinha relações com Adriano.
Esses fatos não permitem afirmar que Bolsonaro ou Flávio tenham participado do assassinato de Marielle — e não é isso que a Justiça estabeleceu. Mas eles ajudam a entender por que as relações entre o entorno político da família Bolsonaro e personagens ligados às milícias permanecem sob escrutínio público.
E agora surge mais um capítulo: um condenado pelo STF no caso Marielle negociando uma emenda parlamentar com o gabinete de Flávio Bolsonaro.
A pergunta que fica
Marielle Franco passou a vida denunciando a violência, defendendo os moradores das periferias e enfrentando estruturas de poder que não queriam ser fiscalizadas.
Foi assassinada. Anderson Gomes também foi assassinado.
Oito anos depois, os mandantes foram condenados.
E agora descobrimos que um dos homens condenados por integrar a organização criminosa ligada a eles tinha acesso ao gabinete de um senador da República, agora candidato à Presidência e negociava recursos públicos por meio de sua assessoria.
Não estamos falando de uma fofoca.
Estamos falando de mensagens apreendidas pela Polícia Federal, dinheiro público, uma emenda parlamentar e um homem condenado pelo Supremo Tribunal Federal.
Quem tem acesso ao dinheiro público? Quem abre as portas do poder? Quem são os aliados políticos de quem? E por que personagens ligados às milícias continuam encontrando caminhos para chegar aos gabinetes da política institucional?
Share this content:



Publicar comentário