Como Lula pegou o Brasil × como está hoje
A primeira reportagem da série do SENALBA-MG compara a política de saúde pública nos governos Bolsonaro e Lula — da pandemia ao Programa Nacional de Imunizações.
O SENALBA-MG inicia uma série de matérias ao longo da corrida eleitoral para mostrar ao trabalhador como Lula pegou o Brasil em algumas áreas e como o país melhorou, significativamente, nos últimos anos. Também vamos apontar as principais promessas de campanha dos presidenciáveis e dos candidatos ao governo do Estado, e como isso pode afetar a vida do brasileiro nos próximos anos.
Para começar, voltamos a 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro, para debater um tema essencial: saúde.
A herança de 2022: uma saúde pública marcada pela crise
Quando Bolsonaro deixou o governo, a saúde brasileira carregava as marcas de uma das maiores crises sanitárias do país, agravada pela negligência do governo federal. A pandemia de Covid-19 deixou milhares de mortos — mas o problema não estava apenas no tamanho da tragédia, e sim na forma como o governo respondeu a ela.
Durante a pandemia, o governo Bolsonaro adotou uma postura contrária às orientações das autoridades sanitárias e da própria ciência. Enquanto famílias choravam seus mortos, o presidente minimizava a gravidade da doença, atacava medidas de proteção, promovia remédios sem eficácia comprovada e fazia declarações que ajudavam a desacreditar as vacinas.
Quatro ministros em quatro anos
O governo Bolsonaro enfrentou a pandemia com quatro ministros da Saúde diferentes, alternando entre gestões técnicas e de alinhamento político direto com o Planalto. A crise expôs divergências sobre distanciamento social e medicamentos sem eficácia, derrubando os dois primeiros ministros médicos. Depois veio uma fase de centralização militar, focada em logística, e por fim um retorno à liderança médica, que priorizou a vacinação em massa.
| Ministro | Período | Postura diante da pandemia | Principais ações e desfechos |
|---|---|---|---|
| Luiz Henrique Mandetta | Jan/2019 – Abr/2020 | Defesa da ciência e do isolamento; alinhado às diretrizes da OMS. | Defendeu que as pessoas ficassem em casa e recusou o uso em massa da cloroquina. Foi demitido após forte desgaste público com o presidente. |
| Nelson Teich | Abr/2020 – Mai/2020 | Perfil técnico; tentou decisões baseadas em dados e ampliação de testes. | Durou apenas 29 dias no cargo. Pediu demissão após o governo liberar academias e salões e exigir protocolo de cloroquina em casos leves. |
| Eduardo Pazuello | Mai/2020 – Mar/2021 | Alinhamento total e foco em logística: “um manda, o outro obedece”. | Militarizou a pasta, oficializou o “kit covid” e enfrentou o colapso de oxigênio em Manaus. Gestão marcada pela lentidão na negociação de vacinas. |
| Marcelo Queiroga | Mar/2021 – Dez/2022 | Equilíbrio político; focou na vacinação sem confrontar o presidente. | Coordenou a distribuição de vacinas para a maior parte da população. Posicionou-se contra passaporte vacinal e máscaras obrigatórias. |
O que o TCU encontrou
O Tribunal de Contas da União identificou deficiências na governança do Ministério da Saúde durante a pandemia: baixa execução de recursos, falta de critérios claros para transferência de verbas e distribuição desigual entre os estados. Pará e Rio de Janeiro — com algumas das maiores taxas de mortalidade por Covid-19 — estavam entre os estados que menos receberam recursos por habitante. O TCU também apontou lentidão na aquisição de insumos e medicamentos urgentes e falhas de transparência na distribuição de vacinas.
A vacina que poderia ter chegado antes
Um dos maiores problemas do governo Bolsonaro foi a negociação de vacinas com a Pfizer. É de conhecimento público que a empresa apresentou ofertas ao governo brasileiro em 2020, mas não obteve resposta do Governo Federal. O próprio TCU concluiu, posteriormente, que a vacinação com o imunizante oferecido poderia ter começado antes no Brasil — e salvado milhões de pessoas.
Em 2022, foram encontradas ainda divergências nos registros de vacinas distribuídas e falta de transparência sobre os critérios de distribuição aos municípios.
“Quando uma autoridade desacredita uma vacina, ela não está apenas emitindo uma opinião: está influenciando o comportamento de milhões de pessoas.”
Enquanto o caos era completo no país e muitas famílias perdiam entes queridos, Bolsonaro insistia no discurso negacionista — ironizando publicamente a segurança dos imunizantes e tentando, depois, justificar as declarações como “figura de linguagem”.
O negacionismo deixou marcas além da Covid
O Brasil construiu, ao longo de décadas, um dos mais importantes programas públicos de vacinação do mundo. Graças ao SUS e ao Programa Nacional de Imunizações, doenças que provocavam milhares de mortes e sequelas passaram a ser controladas ou eliminadas. Mas a queda das coberturas vacinais colocou esse patrimônio em risco.
A queda da vacinação não começou exclusivamente em 2019 e tem causas múltiplas. Mas um governo que trata a vacinação com desconfiança, promove desinformação e não prioriza uma comunicação pública forte contribui para aprofundar um problema que já vinha crescendo. Vacina não é questão de ideologia — vacina salva vidas.
O papel do SUS — e um decreto que tentou mexer nele
Foi durante a pandemia que milhões de brasileiros compreenderam, na prática, a importância do Sistema Único de Saúde. O SUS esteve na vacinação, nos hospitais, na vigilância epidemiológica, nos exames, no atendimento de emergência, na distribuição de medicamentos e em uma infinidade de serviços que alcançam diariamente a população. Sem o SUS, a resposta brasileira à pandemia teria sido ainda mais desigual e devastadora.
Lula e a reconstrução da política de saúde
A partir de 2023, o governo Lula adotou uma direção diferente. Uma das marcas dessa mudança foi a retomada de campanhas nacionais de vacinação e da comunicação pública em defesa dos imunizantes: o Zé Gotinha voltou às campanhas, ao lado do Movimento Nacional pela Vacinação e da mensagem de que vacina é para todos. Em 2023, o governo também destinou recursos adicionais para estados e municípios ampliarem as ações de multivacinação.
- Mais Médicos retomado e ampliado, com milhares de novas vagas em 2023, levando profissionais a regiões com dificuldade de acesso à atenção básica.
- Farmácia Popular ampliado, com mais oferta gratuita de medicamentos e priorização de municípios mais vulneráveis.
- Retomada da vacinação como política de Estado, com foco em recuperar a confiança da população.
Dois governos, duas respostas
Enquanto o governo anterior convivia com um discurso presidencial que colocava a vacinação sob suspeita, o governo Lula recolocou a vacinação como política de Estado. Veja o resumo comparativo:
Governo Bolsonaro (até 2022)
- Discurso negacionista diante da pandemia e das vacinas
- Quatro ministros da Saúde em quatro anos, com forte instabilidade
- Demora na negociação com a Pfizer, segundo o TCU
- Distribuição desigual de recursos entre estados
- Retorno do sarampo e queda da cobertura vacinal (pólio em 44,84%)
- Tentativa de abrir a atenção primária a parcerias privadas (Decreto 10.530)
Governo Lula (a partir de 2023)
- Retomada das campanhas nacionais de vacinação e do Zé Gotinha
- Recursos adicionais para estados e municípios ampliarem a multivacinação
- Mais Médicos retomado, com milhares de novas vagas
- Farmácia Popular ampliado, priorizando municípios vulneráveis
- Vacinação tratada como política de Estado, não como opinião
- Foco em reconstruir a confiança da população no SUS
Por que isso importa para o trabalhador
Saúde pública não é apenas hospital. É conseguir um médico perto de casa. É conseguir medicamento quando não se tem dinheiro para comprar. É vacinar uma criança. É fazer um exame. É conseguir atendimento antes que uma doença se agrave. É ter um sistema capaz de responder quando uma epidemia aparece.
O Brasil sentiu na pele o que acontece quando a ciência é substituída pelo negacionismo: quem paga a conta é a população. Quando a vacinação é abandonada, doenças erradicadas podem voltar.
É importante lembrar como estava o Brasil antes e depois de Lula em algumas áreas — e analisar os candidatos atuais e seus planos de governo, para que não se corra o risco de eleger, mais uma vez, um retrocesso para a população brasileira.
Share this content:



Publicar comentário