Depois de tratar da saúde, o segundo capítulo da nossa série compara o que os governos Jair Bolsonaro e Lula fizeram pela educação brasileira — e o que está em jogo com a candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026.
O legado de Bolsonaro na educação
Assim como na saúde, a educação brasileira não teve outro vilão além do próprio governo Bolsonaro e de quem ele colocou à frente do Ministério da Educação. Foram quatro anos de desmonte, cortes orçamentários e instabilidade institucional em todos os níveis de ensino.
Com esse cenário, a evasão escolar cresceu, principalmente no ensino médio. Bolsonaro ainda interrompeu iniciativas como o Bolsa Família Educação e limitou as escolas de tempo integral. Em contrapartida, seu governo criou mais de 200 escolas cívico-militares, com gestão influenciada pelas Forças Armadas — modelo questionado por especialistas por não seguir princípios pedagógicos democráticos.
Ataque às universidades e à ciência
O governo também mirou as universidades públicas: tentou introduzir mensalidades, ameaçou a autonomia acadêmica e promoveu campanha contra o chamado “marxismo cultural” nas instituições. As verbas de CAPES e CNPq foram reduzidas, bolsas de estudo e pesquisa foram congeladas ou cortadas, nenhuma universidade nova foi criada e mais de 4 mil obras ficaram paralisadas. A pesquisa científica foi desvalorizada — o que ajuda a explicar o negacionismo do governo durante a pandemia.
Bolsonaro deixou a presidência com um sistema educacional crítico e desestruturado: orçamento abaixo do mínimo constitucional, escolas precárias, milhares de obras inacabadas e professores desmotivados.
A reconstrução no governo Lula
A prioridade de Lula foi clara: reconstruir, recompor recursos e ampliar oportunidades em todos os níveis da educação.
Na educação básica, as verbas para escolas e merenda foram reajustadas — essencial para jovens da periferia, que muitas vezes fazem dessa refeição a principal do dia. Com o Programa Nacional de Alfabetização, o analfabetismo funcional caiu consideravelmente, e o Pé-de-Meia já beneficiou 5,6 milhões de jovens.
O governo retomou mais de 2 mil projetos paralisados e ampliou o ensino em tempo integral para quase dois milhões de novas vagas. O resultado: o Ideb atingiu o melhor nível em 20 anos, com melhora significativa em português e matemática.
Universidades, ciência e pesquisa de volta ao lugar
No ensino superior e técnico, Lula promoveu a recomposição orçamentária, restaurou recursos de universidades e institutos federais e quitou dívidas históricas. As bolsas da CAPES e do CNPq foram reajustadas e ampliadas, novos campi foram criados e programas de ciência e tecnologia retomados. A liberdade acadêmica e a gestão democrática foram restabelecidas, e o programa de escolas cívico-militares foi extinto, devolvendo à área da educação a responsabilidade pela gestão pedagógica.
Comparação direta: Bolsonaro x Lula (2019–2026)
| Área da educação | Governo Jair Bolsonaro (2019–2022) | Governo Lula (2023–2026) |
|---|---|---|
| Orçamento | Cortes drásticos e congelamento de verbas; piso constitucional não cumprido | Recomposição integral do orçamento; cumprimento do piso e investimentos recordes |
| Universidades e institutos federais | Ataques à autonomia, ameaças de mensalidade, dívidas acumuladas e obras paralisadas | Recursos restaurados, dívidas quitadas, autonomia e gestão democrática respeitadas |
| Bolsas e pesquisa (CAPES/CNPq) | Congelamento e corte de bolsas; desvalorização da ciência | Reajuste de valores e ampliação de vagas; retomada da pesquisa nacional |
| Educação básica | Instabilidade com 6 ministros; aumento da evasão; queda na alfabetização | Programa de alfabetização; Pé-de-Meia reduz evasão em até 43% |
| Merenda e estrutura escolar | Verbas cortadas; milhares de escolas sem condições mínimas | Retomada de obras; reforço da merenda e ampliação de vagas públicas |
| Políticas educacionais | Criação de escolas cívico-militares; enfraquecimento de políticas públicas | Fim do modelo cívico-militar; retomada da gestão pedagógica |
Em resumo: o governo Bolsonaro trouxe desmonte, cortes e instabilidade à educação. O governo Lula reconstruiu o ensino, recompôs os recursos e ampliou o acesso — tratando a educação como o investimento que ela deve ser.
2026: o que propõe cada candidato
O desafio na educação continua o mesmo nas eleições de 2026. Enquanto o governo Lula apresenta um programa claro, estruturado e com resultados já em curso, Flávio Bolsonaro não tem um plano detalhado para a área. Sua única proposta explícita é retirar as universidades federais da subordinação ao Ministério da Educação (MEC) — sem explicar a nova estrutura, o financiamento ou como preservar a autonomia universitária.
| Tema | Propostas de Lula | Propostas de Flávio Bolsonaro |
|---|---|---|
| Ensino superior | Ampliação de vagas em universidades e institutos federais; expansão de campi; fortalecimento do ensino público gratuito | Única proposta conhecida: retirar as universidades federais do MEC, sem explicar substituição ou garantias de recursos |
| Ciência e tecnologia | Ampliação de investimentos em pesquisa; reestruturação de carreiras; integração entre universidade e desenvolvimento nacional | Nenhuma proposta apresentada sobre o tema |
| Educação básica | Universalização da escola em tempo integral; continuidade do Pé-de-Meia; meta de alfabetização até o 2º ano; valorização de professores | Nenhuma proposta detalhada apresentada |
| Financiamento da educação | Garantia de investimento mínimo constitucional; ampliação de verbas; plano de valorização profissional | Nenhuma proposta detalhada apresentada |
| Autonomia e liberdade acadêmica | Garantia de liberdade de ensino, pesquisa e gestão democrática nas instituições | Proposta de desvinculação do MEC gera risco de perda de autonomia e de critérios técnicos |
A proposta de Flávio representa um retrocesso: repete a mesma lógica de desmonte e desvinculação de políticas públicas que marcou o governo de seu pai. Afastar as universidades da política educacional nacional abre caminho para descontinuidade de investimentos, fragilização da gestão democrática e interferência de critérios alheios ao desenvolvimento científico e social do país.
Entre 2018 e 2026, a postura em relação à educação não mudou em essência. Um povo educado, informado e consciente dos seus direitos dificilmente apoiará projetos que priorizam o desmonte de serviços públicos e o retrocesso social. A educação transforma, liberta e guia escolhas — e é justamente essa independência que se busca evitar.
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