Nikolas Ferreira e o retorno das fake news sobre a pandemia
Um novo capítulo de fake news sobre a pandemia reabre feridas que o Brasil ainda não terminou de curar.
Depois de anos de uma das piores pandemias mundiais e com várias famílias ainda tentando se reerguer de perdas de entes queridos e de sequelas deixadas pela COVID-19, Nikolas Ferreira se prestou, mais uma vez, a disseminar desinformações.
Antes, esse papel de espalhar desinformação cabia a Jair Bolsonaro, e todos sabem muito bem quais eram suas falas e posicionamentos. Desde defender o uso de cloroquina até imitar uma pessoa com falta de ar, assim agia o então presidente diante de tudo o que estava acontecendo.
Como se não bastasse ter vivido todo o horror e acompanhado as ideias e opiniões absurdas de Jair Bolsonaro, o seu aliado, Nikolas Ferreira, publicou um vídeo ontem trazendo à tona não apenas o tema da COVID-19, mas também uma série de notícias falsas.
No vídeo compartilhado em suas redes sociais no último domingo, Nikolas se refere a uma audiência do médico Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos, na qual foram questionadas tanto as medidas sanitárias adotadas durante a pandemia quanto a eficácia das vacinas.
Em sua publicação, Nikolas afirma que parlamentares tiveram acesso a diários e documentos pessoais atribuídos ao médico — mas, como é de sua natureza, não apresentou nenhuma prova. Além disso, o parlamentar se ampara em declarações do secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert Kennedy Jr., que afirma, igualmente sem qualquer evidência, que Fauci teria mentido sobre tudo: vacinação, imunidade, uso de máscaras e distanciamento social.
Mas será que a opinião de pessoas declaradamente negacionistas e contrárias à vacinação merece ser levada em consideração?
O estudo e a busca pela verdade não parecem ser o ponto forte de Nikolas. Ele recorre, ao invés disso, a um velho expediente: usar o medo para conquistar a atenção da população e, não raro, mantê-la presa às suas narrativas enganosas. Afirmar que documentos que ninguém viu — e que provavelmente nunca serão apresentados — comprovariam que Fauci contraiu problemas pulmonares após receber a vacina da COVID é um discurso desleal e perigoso.
Cabe perguntar: como podemos dar crédito a visões baseadas em negacionismo? Em que as provas que apresentam são, na melhor das hipóteses, duvidosas e, na maioria, simplesmente inventadas?
O vírus surgiu em 2019, na China, espalhou-se rapidamente pela Ásia e pela Europa e não demorou a chegar aos Estados Unidos. No Brasil, no início, a rotina seguia normal, e tudo o que se via era o horror das notícias vindas de fora. Mesmo diante de todos os alertas, o que fez o governo brasileiro? Manteve os aeroportos abertos e permitiu a entrada de turistas estrangeiros durante o Carnaval de fevereiro de 2020.
Após o Carnaval, o Brasil nunca mais foi o mesmo: às notícias, o medo e as mortes passaram a chegar em ritmo acelerado. Como ainda se sabia pouco sobre o vírus, o mundo se organizou e se atentou aos cuidados necessários. Todos, claro, exceto o Brasil.
Em junho de 2020, o Instituto Butantan ofereceu lotes de vacinas ao Brasil. Pouco depois, em agosto do mesmo ano, a Pfizer também apresentou proposta de fornecimento de doses. E por que o Brasil? Caso muitos não saibam — e aparentemente o próprio parlamentar ignora —, o país é referência mundial na área de imunização, e a Pfizer desejava utilizar sua estrutura e sua capilaridade para viabilizar a vacinação em larga escala.
Talvez o parlamentar tenha se esquecido, mas ficou amplamente demonstrado durante os trabalhos da CPI da COVID que, se a proposta de vacinas oferecida pela Pfizer tivesse sido aceita pelo governo na época, milhões de vidas poderiam ter sido salvas.
Ao invés de confiar na ciência, Jair Bolsonaro e seu governo assistiram, omissos, o Brasil perder milhares de pessoas a cada dia. Em entrevistas, minimizava a doença chamando-a de “gripezinha”, imitava pacientes com dificuldade respiratória, fazia propaganda de medicamentos sem eficácia comprovada e deixou faltar insumos essenciais para o atendimento e a sobrevivência da população. Para Bolsonaro, nenhuma medida de restrição deveria ter sido adotada; o isolamento e o uso de máscaras seriam medidas desnecessárias.
Nikolas defende exatamente as mesmas ideias, demonstrando que, além de tudo, é um inimigo da ciência. Mais uma vez, ele joga com o medo das pessoas e torce pela ignorância de muitos, pois é somente assim que seus argumentos parecem ter algum sentido.
A verdade é que todas as mortes que poderiam ter sido evitadas a partir de agosto de 2020 são de responsabilidade de Jair Bolsonaro e de seu governo. E Nikolas Ferreira vir à tona, anos depois, reabrir feridas com afirmações sem fundamento apenas demonstra que ele é tão irresponsável quanto aquele a quem segue.
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