O discurso do medo não é política de segurança
Renan Santos prometeu guerra ao crime, presídios bilionários e o modelo Bukele. Mas discurso forte não é o mesmo que resposta eficiente — e o Brasil já pagou para descobrir isso.
Na última quarta-feira, Renan Santos, do Missão e candidato à Presidência da República, foi sabatinado pela Globo. Falou sobre economia, segurança pública, soberania e suas propostas para o país. Mas o que chama atenção não é a quantidade de propostas — é a forma como ele constrói seu discurso: radical, agressivo, baseado na ideia de que problemas complexos podem ser resolvidos pela força.
E quando esse discurso vem de alguém que pretende ocupar a Presidência, é preciso levá-lo a sério.
Segurança: guerra ao crime organizado
“O sangue que tem que jorrar é o do bandido.”
Na sabatina, defendeu que a polícia deve atirar para matar. Propôs um regime de exceção em territórios dominados por facções, com adoção do Estado de Defesa nessas áreas.
Mas existe uma pergunta que não pode ser ignorada: se a solução para a violência é ainda mais violência, como exatamente se pretende acabar com o problema? Matar criminosos não desmonta, sozinho, uma organização criminosa — facções têm dinheiro, armas, logística, recrutamento e estruturas de comando. Quando uma pessoa sai da engrenagem, outra ocupa o lugar.
Segurança pública exige inteligência, investigação, combate ao financiamento do crime organizado, controle de armas, polícias fortalecidas, sistema prisional eficiente e presença do Estado. Não basta dizer “prendeu, matou”. É preciso explicar como, quanto custa e quais são as consequências.
César Tralli lembrou, na sabatina, da intervenção federal na segurança do Rio, quando o Exército assumiu o comando por cerca de dez meses. Resultado: não resolveu o problema das facções nem impediu que ampliassem seu domínio territorial.
O Brasil já experimentou uma estratégia de ampliação do aparato militar e ocupação de territórios. Ela não produziu a solução prometida — e a resposta de Renan é ampliar ainda mais essa mesma lógica.
Construir 10 presídios federais, investimento de R$ 6 bilhões, mais R$ 5 bilhões por ano em operações contra o crime organizado. Promete também centenas de milhares de novas vagas no sistema prisional.
Agora imagine levar essa política para um país inteiro. Quanto isso custaria? Quem pagaria essa conta? E, principalmente, qual é a garantia de que o resultado seria diferente do que já aconteceu no Rio de Janeiro?
A inspiração declarada: o modelo Bukele
Renan declarou que pretende adotar “muitos elementos” do modelo de Nayib Bukele, presidente de El Salvador — entre eles, o uso de um regime especial de exceção para combater o crime.
O problema é que o modelo salvadorenho não se resume à queda dos índices de homicídios. El Salvador vive, desde 2022, sob um regime de exceção que ampliou os poderes do Estado e restringiu garantias fundamentais.
Organizações internacionais registraram prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos e mortes sob custódia. A Anistia Internacional documentou o custo humano do regime de exceção — inclusive casos de pessoas presas sem provas suficientes e depois libertadas.
- Um Estado com poderes extraordinários
- Garantias individuais que podem ser suspensas
- Pessoas presas sem comprovação suficiente de crime
O horror de importar esse modelo está na possibilidade de que, em nome de combater criminosos, o Estado passe a tratar milhões de cidadãos como suspeitos.
Economia: cortar R$ 1,1 trilhão
Forte ajuste fiscal, com corte de cerca de R$ 1,1 trilhão em gastos públicos para conter o crescimento da dívida e abrir espaço para investimentos.
De novo a mesma questão: como fazer isso sem desmontar serviços públicos essenciais? Não basta apresentar um número gigantesco como se cortar gastos fosse apertar um botão — é preciso dizer quais despesas serão cortadas, quais áreas serão atingidas e como isso afeta a vida das pessoas.
O ponto cego: as mulheres
O plano de governo de Renan não apresenta política estruturada para as mulheres. Na sabatina, ele demonstrou desconhecimento sobre políticas de enfrentamento ao feminicídio — a Lupa apontou erro ao atribuir exclusivamente a estados e municípios a responsabilidade por essas políticas.
- Onde está a política nacional de combate ao feminicídio?
- Onde está o fortalecimento das redes de proteção?
- Onde estão as propostas para vítimas de violência doméstica?
- Onde está a política para trabalhadoras em desigualdade?
O que já sabemos que custa
Os números que o próprio discurso coloca sobre a mesa
Renan Santos tem um discurso forte — que chama atenção, provoca, desperta indignação e, principalmente, medo. E um discurso construído em cima do medo é perigoso.
É claro que a segurança da população é fundamental. Mas justamente por isso é preciso exigir responsabilidade: a segurança do brasileiro não pode ser construída sobre mais violência.
O Brasil não precisa de um presidente que prometa sangue. Precisa de um governo que saiba impedir que o sangue seja derramado.
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