As eleições passaram, mas o rastro do bolsonarismo ficou, e da pior forma possível. Desde o resultado do segundo turno, eleitores de Flávio Bolsonaro passaram a boicotar estabelecimentos de empresários e microempresários que votaram em Lula. Pessoas que levantam seus negócios com suor, que geram empregos e fazem a economia girar estão sendo punidas unicamente por exercerem o sagrado direito de escolha nas urnas — uma perseguição mesquinha, que atinge até famílias inteiras e coloca em risco o sustento de quem nada fez além de expressar sua opinião.
Isso por si só já é muito problemático, mas fica ainda pior quando um deputado federal, alguém que deveria zelar pela harmonia e pelo bem comum, não só compactua como endossa publicamente esse boicote.
Nikolas Ferreira, em um vídeo publicado em seu Instagram, afirmou que “temos o direito de escolher para onde vai o nosso salário”. Mas será mesmo? E onde fica a liberdade que o Partido Liberal e o próprio Nikolas tanto pregam? A liberdade de escolha, de opinião, de não ser discriminado por suas convicções? A seu bel-prazer, ele joga no lixo esses princípios quando eles não lhe servem.
A verdade é que esse comportamento não atrapalha apenas a vida de quem luta todos os dias, mas também a economia do país, empobrecendo comunidades e aprofundando feridas que deveriam estar sendo curadas. Ainda no vídeo, Nikolas disse que empresários, artistas e influenciadores “xingaram, zombaram e acusaram 60 milhões de pessoas de serem extremistas, nazistas, genocidas, golpistas” — mas com essa postura, ele prova, de maneira cristalina, que quem assim se expressou não estava errado. Ele confirma rótulos em vez de desmenti-los.
Nikolas é, na verdade, uma pessoa imatura, que não aceita ser contrariada e acha que tudo deve ser do jeito que ele quer — um homem que ainda não aprendeu a respeitar a divergência, confundindo discordância com ataque e oposição com inimigo. O parlamentar imagina que, por ter recebido três milhões de votos em Minas Gerais, detém algum poder sobre um país com mais de 200 milhões de habitantes. Ele parece esquecer que o voto não é um cetro, mas uma confiança — e confiança exige responsabilidade, não arrogância.
Talvez seja hora de lembrar ao deputado qual é o seu papel: como representante do povo, ele tem duas atribuições principais, definidas na Constituição: legislar e fiscalizar. Ou seja, Nikolas não está na Câmara apenas para os três milhões de mineiros que o elegeram, assim como Lula não ocupa o cargo mais alto apenas para os 64 milhões de brasileiros que votaram nele. Representar é acolher todos, inclusive quem pensa diferente, e isso ele sistematicamente falha em fazer.
Um mandato político é um cargo público. O salário de Nikolas e de qualquer político que apoie esse boicote é pago por toda a população brasileira, incluindo aqueles que votaram contra ele, incluindo os empresários que ele quer boicotar. Ocupar uma cadeira na Câmara vai muito além de convicções pessoais; é servir ao coletivo, e não usar o cargo para vingança política ou para satisfazer o próprio ego.
O parlamentar defende que é justo que eleitores de direita não queiram consumir ou “fortalecer pessoas que não compartilham os nossos princípios”. E, mais uma vez: se Nikolas fosse apenas um cidadão comum, seria uma postura questionável. Mas estamos falando de um deputado — e, como tal, fazer tais declarações é não só inaceitável, mas profundamente danoso: ele dá aval institucional à discriminação e estimula a divisão entre brasileiros.
Em outro trecho do vídeo, Nikolas afirmou: “Eles ficaram esse tempo todo dizendo: ‘Recua, fascista, recua’. E nós recuamos.” E isso revela total falta de prudência, ou talvez total sinceridade. De forma talvez involuntária, ou talvez não, ele se assumiu como fascista, e não apenas ele, mas falou em nome de todo um grupo, assumindo para si e para seus seguidores um rótulo que deveria repelir. É uma confissão espantosa, feita com desfaçatez, sem qualquer noção do peso das palavras.
Além de endossar o boicote, Nikolas ironizou a queda de doações a instituições beneficentes — entidades que amparam os mais vulneráveis, que cuidam de quem mais precisa. Embora tenha falado no mesmo vídeo que não compactua com a redução de contribuições, o estrago já estava feito: suas palavras ecoaram, foram compartilhadas e legitimaram o abandono de quem depende de solidariedade. Retificações tardias não apagam o dano.
É preciso dizer que Nikolas governa pelas redes sociais. Isso não seria um problema, afinal vivemos na era digital. O grande problema é que suas falas e seu comportamento são imaturos, voláteis e danosos: ele fala com deboche, menospreza o sofrimento alheio e trata a política como um palco de espetáculo, onde o importante é a aplauso da multidão virtual, não o bem-estar da nação. Faz discurso de líder, mas age como quem quer apenas ganhar curtidas.
Nikolas precisa amadurecer urgentemente, deixar de ser apenas o “deputado do TikTok” e cumprir de fato o seu mandato com dignidade, respeito e dedicação a todos os brasileiros, sem distinção. Até lá, continuará sendo um exemplo do que um representante não deve ser.
O SENALBA-MG repudia veementemente as declarações de Nikolas e de seus aliados sobre o boicote a empresários e a perseguição a trabalhadores por divergência política. Dividir para governar não é liderança, é fracasso.
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