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Flávio Bolsonaro: contra o trabalhador, cercado de contradições e cada vez mais parecido com o pai

A cola na mão: quem é Flávio Bolsonaro

Opinião · Eleições 2026

Mudança, futuro, 7/set: a cola que resume Flávio Bolsonaro

Entre a escala 6×1, o Banco Master e a sabatina no Jornal Nacional, o senador tenta se vender como novidade — mas até o gesto de colar a resposta na mão ele copiou do pai.

Flávio Bolsonaro durante ato de campanha presidencial
Flávio Bolsonaro em ato de campanha presidencial. Foto: AFP

Flávio Bolsonaro decidiu interromper parte de sua agenda de campanha nesta terça-feira para permanecer em Brasília e acompanhar as articulações contra o fim da escala 6×1. Não é pouca coisa. Em plena campanha presidencial, quando deveria estar apresentando propostas para melhorar a vida dos brasileiros, Flávio escolhe concentrar seus esforços em tentar impedir uma mudança que pode significar mais descanso, mais convivência familiar e mais qualidade de vida para milhões de trabalhadores.

E não é por acaso. O fim da escala 6×1 é uma das principais bandeiras do governo Lula, e Flávio sabe disso. Sua alternativa é defender que trabalhador e patrão negociem a jornada e que a remuneração seja vinculada às horas trabalhadas. Na prática, vende como “liberdade” aquilo que pode ampliar a desigualdade na negociação entre quem precisa do salário para sobreviver e quem controla o emprego.

É muito fácil falar em “liberdade de negociação” quando não se está na posição de quem precisa enfrentar o chefe para pedir melhores condições. O trabalhador não negocia em igualdade de condições com o empresário quando depende daquele emprego para pagar aluguel, comida e contas. E é justamente por isso que direitos trabalhistas existem: porque, historicamente, deixar tudo na conta da negociação individual significou deixar o lado mais fraco à mercê do lado mais forte.

Mas, se alguém ainda tinha dúvidas sobre quem é Flávio Bolsonaro e a quem ele pretende governar, bastava assistir à sua sabatina no Jornal Nacional.

O Banco Master e as respostas que não fecham

Questionado sobre Daniel Vorcaro e os recursos destinados ao filme Dark Horse, Flávio tentou apresentar a história como uma simples relação privada e afirmou que os detalhes do contrato já haviam sido apresentados. O problema é que essa afirmação foi classificada como falsa pela Agência Lupa: a perícia apresentada pela produtora não anexou os documentos que comprovariam a origem dos recursos e não esclareceu a procedência de milhões de reais utilizados no Brasil.

E a história fica ainda mais complicada porque não estamos falando de um desconhecido que apareceu do nada para financiar um filme. Documentos e mensagens revelados pelo Intercept mostraram que Flávio participou diretamente das tratativas com Vorcaro, pedindo e cobrando recursos para a produção. Pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões à época, haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025.

Na sabatina feita pela Rede Globo, Flávio também afirmou que não houve contrapartida pelo fato de ser senador. Não há, até o momento, prova apresentada de que ele tenha oferecido uma contrapartida específica a Vorcaro em troca dos pagamentos. Mas isso não elimina o problema político: o banqueiro é investigado em um esquema no qual, segundo as investigações, pagamentos e vantagens teriam sido oferecidos a políticos em busca de favores.

E então vem a pergunta que Flávio continua evitando: se está tudo explicado, por que tanta dificuldade para apresentar os documentos?

Porque a história que ele conta não consegue acompanhar os documentos que aparecem.

E hoje, 1º de setembro, surgiu mais um capítulo. Novos dados revelados pela revista piauí apontam para mais repasses de Vorcaro relacionados ao filme, incluindo uma nova parcela de aproximadamente US$ 1,66 milhão. A informação contradiz a versão de que os pagamentos teriam terminado em maio de 2025. Segundo os novos registros, houve movimentações posteriores, inclusive em setembro e outubro. O total apontado chega a US$ 12,3 milhões, acima dos valores que Flávio havia admitido anteriormente.

↳ referente aos novos dados da revista piauí citados acima

Gráfico com os repasses de Daniel Vorcaro relacionados ao filme Dark Horse
Levantamento dos repasses de Daniel Vorcaro relacionados ao filme Dark Horse.

Crédito: [confirme a fonte original do gráfico — não consegui verificá-la a partir do link enviado]

E qual foi a resposta de Flávio? Novamente, ele tentou terceirizar a explicação. Disse que não tinha como responder e que era preciso perguntar à produtora. Isso seria mais convincente se não fosse o próprio Flávio quem aparece nas mensagens negociando os repasses com Vorcaro.

Quem pede o dinheiro não pode simplesmente desaparecer quando chega a hora de explicar para onde ele foi.

A CPI que Flávio usa como escudo

Flávio também gosta de repetir que foi um dos responsáveis pela criação da CPI do Banco Master. Só que, mais uma vez, a história contada por ele precisa de uma boa dose de contexto.

Dos cinco requerimentos apresentados no Senado para investigar o caso, Flávio não assinou três. Ele assinou apenas os pedidos apresentados por Carlos Jordy e Carlos Viana. E mais: as assinaturas ocorreram depois que vieram a público os áudios que revelaram suas conversas com Vorcaro, em maio de 2026.

Ou seja: quando Flávio diz que “pedia muito” pela CPI, ele transforma uma participação parcial em uma atuação muito maior do que efetivamente teve. Ele assinou o que lhe convinha e agora tenta usar a própria CPI como certificado de independência. Mas uma assinatura seletiva não apaga o que os documentos revelaram.

E enquanto isso, Flávio admira Bukele

Como se não bastassem as contradições na economia, no trabalho e na democracia, Flávio também apresenta ao brasileiro o modelo que pretende importar para a segurança pública: o de Nayib Bukele, de El Salvador.

Flávio já declarou que pretende trazer o “método Bukele” para o Brasil e defendeu uma política de encarceramento muito mais dura. Seu plano de governo prevê, inclusive, um modelo prisional inspirado em El Salvador. Só que talvez esteja faltando ao senador uma coisa básica: estudar a Constituição brasileira antes de prometer copiar políticas de outro país.

O modelo de Bukele não se resume a construir presídios. El Salvador vive desde 2022 sob um estado de exceção que suspendeu garantias processuais, enquanto organizações de direitos humanos documentaram detenções arbitrárias em massa, desaparecimentos forçados, tortura e violações do devido processo. Em 2025, aliados de Bukele ainda aprovaram mudanças que permitiram a reeleição presidencial indefinida.

No Brasil, a Constituição garante devido processo legal, contraditório, ampla defesa, presunção de inocência e integridade física e moral das pessoas presas. Não é questão de “ser bonzinho com bandido”. É questão de entender que Estado forte não é Estado sem limites.

E há outra diferença que Flávio parece convenientemente esquecer: El Salvador não é o Brasil. É um país com pouco mais de 21 mil km² e uma população muito menor, enquanto o Brasil tem mais de 8,5 milhões de km² e cerca de 214 milhões de habitantes. Uma política criada para enfrentar uma realidade específica não pode simplesmente ser copiada como se os dois países tivessem a mesma dimensão, estrutura criminal, sistema federativo e realidade social.

Quando Flávio olha para Bukele e enxerga um exemplo, é preciso perguntar: o que exatamente ele quer importar? Porque, se for a concentração de poder, a relativização das garantias individuais, o encarceramento em massa e a ideia de que a segurança justifica atropelar direitos, então ele deveria ter coragem de dizer isso claramente ao eleitor.

E sobre democracia, a resposta também não foi convincente

Na mesma sabatina, Flávio foi questionado se respeitaria o resultado das eleições caso perdesse. A pergunta era simples. A resposta deveria ser simples.

“Eu não vou perder essa eleição. E digo mais, vou ganhar no primeiro turno.”

Não é preciso interpretar demais. Quando um candidato é perguntado se respeitará o resultado em caso de derrota e responde que não vai perder, ele não responde à pergunta. Ainda mais vindo de uma família política cuja história recente inclui ataques às urnas e uma tentativa de impedir a posse de um presidente eleito.

E Flávio ainda afirmou, na própria sabatina, que “jamais” questionou o processo eleitoral. A afirmação é falsa. Há registros públicos de declarações suas questionando a segurança das urnas desde 2014, defendendo voto impresso em 2018 e falando em “eleições sob suspeita” em 2021.

O brasileiro precisa ficar atento: democracia não é dizer que respeita o resultado quando se tem certeza de que vai ganhar. Democracia é aceitar a derrota quando ela acontece.

Até a “cola” ele copiou do pai

E talvez não exista imagem que resuma melhor Flávio Bolsonaro do que a sua própria mão durante a sabatina: “Mudança. Futuro. 7/set.” Uma cola escrita na palma da mão, repetindo exatamente uma estratégia utilizada por Jair Bolsonaro em entrevistas e debates anteriores. O pai já havia recorrido ao mesmo expediente, inclusive no Jornal Nacional.

Até nisso Flávio precisa imitar o pai. Não é apenas uma questão de estética. É simbólico. Flávio tenta se vender como “novo”, como “mudança”, como uma alternativa. Mas quando se olha para suas ideias, encontra-se a mesma velha política: ataque aos direitos trabalhistas, flexibilização das relações de trabalho, culto ao encarceramento, desconfiança das instituições, ataques ao sistema eleitoral, admiração por modelos autoritários e defesa dos interesses daqueles que já têm poder.

Não é novidade. É uma versão mais jovem da mesma fórmula. Uma caricatura do pai, com as mesmas ideias atrasadas e, em alguns casos, ainda mais explícitas.

No fim, fica a pergunta: de que lado Flávio Bolsonaro está?

Porque, quando aparece uma pauta que pode melhorar a vida de milhões de trabalhadores, ele corre para tentar barrá-la. Quando precisa explicar milhões vindos de um banqueiro investigado, ele diz que a responsabilidade é da produtora. Quando fala da CPI do Banco Master, aumenta a própria participação. Quando é confrontado sobre as urnas, tenta apagar o próprio histórico. Quando perguntado se aceitará uma derrota, responde que não vai perder. Quando fala de segurança, olha para El Salvador e para um modelo marcado por denúncias de violações de direitos. E quando precisa se apresentar ao eleitor, até a cola na mão precisa ser igual à do pai.

Flávio Bolsonaro não está oferecendo mudança. Está oferecendo a repetição de um projeto que coloca trabalhador, direitos e instituições democráticas em segundo plano.

E talvez seja justamente por isso que a população precise olhar com muito cuidado para aquilo que ele chama de “liberdade”, “segurança” e “mudança” — porque, quando a liberdade do trabalhador significa negociar individualmente com quem controla seu emprego, quando a segurança significa relativizar direitos fundamentais e quando a mudança significa repetir o mesmo discurso de sempre, o que está sendo vendido como novidade é apenas o velho bolsonarismo com um rosto diferente.

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