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Em que mundo vive Alcolumbre?

O Tempo que Brasília Pede e o Trabalhador Já Não Tem

O Tempo que Brasília Pede e o Trabalhador Já Não Tem

Enquanto milhões de brasileiros enfrentam jornadas exaustivas, o presidente do Senado sinaliza nova rodada de adiamentos para o fim da escala 6×1.

Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal

Davi Alcolumbre, presidente do Senado Federal — a PEC que encerrou a Câmara aguarda destino no Senado

Davi Alcolumbre parece determinado a fazer de tudo para atrasar uma decisão que os trabalhadores brasileiros já tomaram há muito tempo: o fim da escala 6×1.

Enquanto milhões de brasileiros enfrentam jornadas exaustivas, sacrificam finais de semana, convivem com o desgaste físico e mental e veem sua qualidade de vida ser consumida pelo excesso de trabalho, a principal preocupação de parte da classe política parece ser ganhar tempo. Tempo para negociar. Tempo para discutir. Tempo para ouvir quem sempre foi ouvido: os empresários.

Mas a pergunta que fica é simples: discutir o quê?

Os trabalhadores já falaram. Já se manifestaram. Já deixaram claro o que querem. Querem o fim da escala 6×1. Querem mais tempo para viver, para cuidar da família, para estudar, para descansar e para existir além do trabalho. Não há falta de clareza por parte da população. O que existe é resistência de quem continua priorizando interesses econômicos acima da dignidade humana.

Mesmo após a aprovação da proposta na Câmara dos Deputados, Alcolumbre sinaliza que o texto não terá tramitação acelerada no Senado. Pelo contrário. Defende que a PEC passe por novas discussões, novas comissões e até mesmo mudanças em seu conteúdo. Na prática, o que deveria representar um avanço para os trabalhadores corre o risco de se transformar em mais uma longa espera imposta por Brasília.

O Argumento da “Negociação”

Alcolumbre agora defende incorporar ao debate propostas apoiadas pela oposição e por setores empresariais, incluindo modelos de remuneração baseados em horas trabalhadas. A justificativa é ampliar a discussão.

Mas em que mundo vive o presidente do Senado para acreditar que o trabalhador possui poder de negociação diante do patrão? Em que realidade ele imagina que milhões de brasileiros poderão simplesmente sentar à mesa e exigir uma remuneração justa por suas horas?

A realidade é outra. Hoje, em inúmeros setores, a hora trabalhada do brasileiro vale menos do que deveria valer para garantir uma vida digna. O trabalhador vende seu tempo cada vez mais barato enquanto o custo de vida dispara. Falar em “negociação” entre empregado e empregador em um país marcado pela desigualdade é ignorar completamente a relação de forças existente dentro do mercado de trabalho.

Não existe negociação equilibrada quando uma das partes depende daquele salário para sobreviver.

Durante décadas, grandes empresas acumularam lucros, incentivos e benefícios enquanto milhões de trabalhadores arcavam com jornadas pesadas, baixos salários e perda constante de qualidade de vida. Não existe equilíbrio nessa relação. Não existe negociação justa quando quem precisa pagar aluguel, colocar comida na mesa e sustentar a família está diante de quem controla sua contratação.

Por isso, muitos trabalhadores enxergam com preocupação a tentativa de alterar uma proposta que já foi debatida, discutida e aprovada. O receio é simples: que a pauta saia do Senado muito diferente daquela que entrou, preservando os interesses de quem sempre teve voz enquanto adia, mais uma vez, uma reivindicação histórica da classe trabalhadora.

O Contraste
Home office em Brasília, Copa no exterior

Como se não bastasse, Alcolumbre anunciou que os parlamentares trabalharão remotamente durante este período. Ou seja, uma categoria que já sofre críticas pela baixa presença em plenário terá ainda mais comodidade enquanto milhões de brasileiros continuam acordando cedo e enfrentando longas jornadas de trabalho.

O contraste é ainda mais revoltante quando observamos casos como o do senador Romário, que está atuando como comentarista esportivo diretamente da Copa do Mundo, ou do deputado Nikolas Ferreira, que também acompanhou o torneio no exterior enquanto ironizava as críticas recebidas nas redes sociais. E o que ambos têm em comum? Foram contrários ao fim da escala 6×1.

Enquanto o trabalhador passa seis dias da semana produzindo riqueza para o país, parte daqueles que deveriam representá-lo aproveita viagens internacionais, trabalhos paralelos e o conforto do home office. Depois, ainda querem dizer ao povo o que é melhor para sua própria vida.

“É muito fácil decidir pelo trabalhador quando não se vive a realidade do trabalhador.”

É muito fácil decidir pelo trabalhador quando não se vive a realidade do trabalhador.

É muito fácil pedir mais tempo para discutir quando não se passa horas no transporte público.

É muito fácil defender negociações individuais quando não se depende daquele salário para sobreviver.

O Brasil precisa lembrar quem realmente move esta nação. Não são os grandes empresários sozinhos. Não são os banqueiros. Não são os parlamentares. São os trabalhadores que mantêm hospitais funcionando, escolas abertas, supermercados abastecidos, transportes circulando, indústrias produzindo e empresas gerando lucro.

Os parlamentares foram eleitos para representar o povo brasileiro. Foram eleitos para ouvir quem trabalha, não apenas quem lucra. O fim da escala 6×1 não é uma pauta de empresários, nem de gabinetes em Brasília. É uma reivindicação dos trabalhadores.

E toda vez que alguém tenta empurrar essa decisão para depois, criar novos obstáculos ou alterar sua essência para atender interesses econômicos, acaba deixando claro de que lado escolheu ficar.

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