Segurança no trabalho não é custo. É vida.
O Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho lembra as vítimas de acidentes e doenças ocupacionais e reforça uma mensagem urgente: nenhum trabalhador deve adoecer, se acidentar ou morrer para garantir o funcionamento de uma empresa.
Uma data marcada pela memória dos trabalhadores
O dia 28 de abril é reconhecido internacionalmente como o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho. A data é observada pela Organização Internacional do Trabalho, OIT, com o objetivo de promover a prevenção de acidentes, doenças ocupacionais e mortes relacionadas ao trabalho.
A data também é lembrada pelo movimento sindical internacional como o Dia em Memória dos Trabalhadores Mortos e Feridos. Ou seja, não se trata apenas de uma campanha institucional. Trata-se de uma pauta histórica da classe trabalhadora, construída a partir da dor de quem perdeu a saúde, a capacidade laboral ou a própria vida no exercício do trabalho.
Um dos episódios mais lembrados nessa história é a tragédia da mina de Farmington, na Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos. Em 1968, uma explosão na mina Consol No. 9 matou 78 mineiros. A tragédia se tornou um marco na luta por normas mais rígidas de segurança na mineração e ajudou a impulsionar mudanças na legislação norte-americana.
O Brasil chegou a um recorde alarmante em 2025
Os dados mais recentes mostram que a situação brasileira exige atenção imediata. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego, com base em registros oficiais do INSS e do eSocial, o Brasil registrou em 2025 o maior número de acidentes e mortes no trabalho da série histórica.
acidentes de trabalho registrados em 2025 no Brasil.
mortes no trabalho registradas em 2025.
acidentes acumulados entre 2016 e 2025.
óbitos acumulados em uma década.
O levantamento também aponta mais de 106 milhões de dias de trabalho perdidos em dez anos e cerca de 249 milhões de dias debitados, indicador que expressa o impacto permanente de lesões graves e mortes na vida dos trabalhadores.
Entre 2020 e 2025, os acidentes aumentaram 65,8%, enquanto os óbitos cresceram 60,8%. Ainda que a formalização do emprego tenha ampliado a base de trabalhadores registrados, o crescimento do número absoluto de ocorrências mostra que o aumento do emprego não foi acompanhado, na mesma proporção, por melhorias nas condições de segurança.
Quem mais se acidenta?
O setor de saúde, especialmente atividades hospitalares e de pronto atendimento, concentra o maior número de acidentes. Entre as ocupações, os técnicos de enfermagem aparecem entre os trabalhadores mais atingidos.
Quem mais morre?
O transporte rodoviário de cargas lidera em número de mortes. Entre as ocupações, os motoristas de caminhão concentram o maior número de óbitos, com 4.249 mortes em dez anos.
O problema não é a falta. O problema é o adoecimento.
É preciso fazer uma crítica direta: ainda existem empresas mais preocupadas em calcular o absenteísmo do que em enfrentar as causas reais do adoecimento dos trabalhadores.
Para um sindicato de trabalhadores, essa lógica precisa ser denunciada com clareza. O problema não é simplesmente o trabalhador que falta. O problema é o ambiente de trabalho que adoece, a jornada que esgota, a pressão que destrói, a sobrecarga, o assédio, a falta de prevenção e a ausência de políticas reais de saúde e segurança.
| Olhar empresarial limitado | Olhar sindical e preventivo |
|---|---|
| Quantos trabalhadores faltaram? | Por que tantos trabalhadores adoeceram? |
| Quantas horas foram perdidas? | Quais condições de trabalho estão gerando afastamentos? |
| Como reduzir o impacto na produtividade? | Como proteger vidas, prevenir acidentes e garantir saúde? |
| Tratar ausência como problema individual. | Tratar adoecimento como responsabilidade coletiva e organizacional. |
Tratar absenteísmo apenas como número de faltas é reduzir a vida do trabalhador a uma planilha. Quando uma empresa calcula quantas horas perdeu com afastamentos, mas não calcula quantas vidas foram impactadas por metas abusivas, jornadas exaustivas, ambientes inseguros e falta de cuidado, ela está escolhendo proteger a produtividade antes de proteger pessoas.
A pergunta correta não deve ser apenas quantos trabalhadores faltaram?. A pergunta correta é: o que existe no ambiente de trabalho que está adoecendo essas pessoas?
A escala 6×1 também faz parte desse debate
A discussão sobre saúde e segurança no trabalho também passa diretamente pela redução da jornada e pelo fim da escala 6×1. Em abril de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a admissibilidade de propostas que reduzem a jornada e, na prática, acabam com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso.
Uma das propostas prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 36 horas. Outra prevê uma escala de quatro dias por semana, também com limite de 36 horas. As propostas ainda precisam passar por comissão especial e pelo Plenário.
| Modelo atual | O que está em debate | Por que isso importa para a saúde |
|---|---|---|
| Escala 6×1: seis dias de trabalho para apenas um dia de descanso. | Redução da jornada e ampliação do tempo de descanso. | Menos exaustão, mais recuperação física, mental e social. |
| Jornada semanal de até 44 horas. | Limite de 36 horas em propostas de emenda constitucional. | Jornadas longas estão ligadas ao cansaço, queda de atenção e adoecimento. |
| Pouco tempo para família, estudo, cuidado e descanso. | Mais tempo de vida fora do trabalho. | Trabalho digno também depende de vida pessoal preservada. |
A resistência de setores da direita e de representantes alinhados ao empresariado contra a redução da jornada precisa ser vista como parte de uma disputa concreta: quem paga a conta da produção?
Quando se discute compensação para empresas, raramente se pergunta quem compensa o trabalhador que adoece. Quem compensa a família que perde alguém em um acidente de trabalho? Quem devolve a saúde de quem foi afastado por exaustão, pressão ou condições inseguras?
A escala 6×1 não é apenas uma forma de organizar a semana. Para milhões de trabalhadores, ela significa viver sem tempo suficiente para descansar, cuidar da saúde, estudar, conviver com a família e se recuperar da rotina de trabalho.
Por isso, defender a redução da jornada não é defender menos trabalho. É defender trabalho com dignidade, saúde e equilíbrio. Nenhuma economia deve se sustentar sobre corpos esgotados, famílias ausentes e trabalhadores adoecidos.
O que precisa mudar?
A prevenção precisa sair do discurso e entrar na prática. Segurança e saúde no trabalho exigem investimento, fiscalização, diálogo com os trabalhadores, atuação sindical, cumprimento das normas e compromisso real com a vida.
- Redução de jornadas exaustivas
- Combate ao assédio
- Fiscalização efetiva
- Equipamentos adequados
- Treinamento permanente
- CIPA atuante
- Escuta dos trabalhadores
- Saúde mental como prioridade
Para o movimento sindical, segurança e saúde no trabalho são pautas permanentes. Defender ambientes seguros, jornadas justas, equipamentos adequados, prevenção de acidentes, combate ao assédio e respeito aos limites humanos não é exagero. É defender o direito básico de todo trabalhador voltar para casa com vida e saúde.
O 28 de abril existe para lembrar que acidente de trabalho não é fatalidade, doença ocupacional não é fraqueza individual e afastamento não é preguiça. Muitas vezes, é consequência direta de ambientes inseguros, jornadas longas, ausência de prevenção e de uma cultura empresarial que ainda insiste em colocar o lucro acima da vida.
- Ministério do Trabalho e Emprego, estudo sobre acidentes de trabalho no Brasil em 2025: acessar fonte
- Câmara dos Deputados, tramitação das propostas sobre redução de jornada e fim da escala 6×1: acessar fonte
- Organização Internacional do Trabalho, histórico do 28 de abril: acessar fonte
- Lei nº 11.121/2005, Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho: acessar fonte
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