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Defender o voto das mulheres é defender a democracia

1932 Não Foi Um Favor: A Nova Ofensiva Contra o Voto Feminino

1932 não foi um favor: a nova ofensiva contra o voto feminino

Uma onda de discursos que nasceu nos Estados Unidos atravessa fronteiras e encontra eco em setores da direita e da extrema direita brasileiras.

Nos últimos meses, tem ganhado força uma perigosa onda de questionamento e ataque a direitos históricos das mulheres, que teve origem nos Estados Unidos e já começa a atravessar fronteiras. Um dos expoentes dessa visão é o influenciador norte-americano de extrema direita Nick Fuentes, que, ao responder qual direito ele retiraria das mulheres, foi direto: “Eu eliminaria o direito ao voto de centenas de grupos, das mulheres, com certeza”. Na mesma linha, o pastor norte-americano Doug Wilson, da Igreja de Cristo e líder da Comunhão de Igrejas Evangélicas Reformadas, defende abertamente a ideia de que “um voto por família, mas decidido pelo marido”.

Eu eliminaria o direito ao voto de centenas de grupos, das mulheres, com certeza.

Nick Fuentes Influenciador norte-americano de extrema direita

Um voto por família, mas decidido pelo marido.

Doug Wilson Pastor, Comunhão de Igrejas Evangélicas Reformadas

Essas falas não são novidade nem atos isolados. Elas carregam uma visão antiga e ultrapassada, que sempre rebaixou e menosprezou a mulher, tratando-a como se não tivesse capacidade de exercer sua cidadania, tomar decisões ou expressar sua própria vontade. Por si só, essa postura já deveria gerar repúdio geral, independente de posição política ou crença. Mas, no Brasil, infelizmente, vemos que esse pensamento encontra eco em setores da direita e da extrema direita, que reproduzem a mesma lógica de desvalorização.

Exemplos não faltam. O pastor Silas Malafaia, conhecido por seu apoio histórico à família Bolsonaro, já declarou em entrevista que “a mulher não racionaliza como o homem”, alegando que ela seria “essencialmente emotiva”. Criticou ainda a pastora Helena Raquel, que orienta mulheres a denunciarem casos de violência doméstica, chamando sua fala de “safadeza para nos denegrir” e questionando dados que mostram que cerca de 43% das mulheres evangélicas sofrem violência em casa: “Que pesquisa vagabunda é essa? Desafio a comprovar isso”.

Que pesquisa vagabunda é essa? Desafio a comprovar isso.

Silas Malafaia Sobre dados de violência doméstica contra mulheres evangélicas

Já o ex-presidente Jair Bolsonaro, em uma palestra realizada no Clube Hebraica, em São Paulo, em 2017, fez uma declaração que resume bem essa forma de ver a mulher: “Fui com os meus três filhos, o outro foi também, foram quatro. Eu tenho o quinto também, o quinto eu dei uma fraquejada. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher”. Para ele, ter uma filha era motivo de “fraqueza”, como se o nascimento de uma menina fosse algo inferior ou indesejado.

O quinto eu dei uma fraquejada e veio mulher.

Jair Bolsonaro Clube Hebraica, São Paulo, 2017

Mais recentemente, Paulo Figueiredo — influenciador bolsonarista, aliado de Flávio Bolsonaro e neto do último presidente da ditadura militar no Brasil — repetiu esse mesmo discurso. Suas falas contra o voto feminino não são um caso isolado: elas fazem parte de um movimento organizado que cresce com força nos Estados Unidos, quase 130 anos após a conquista desse direito pelas mulheres naquele país. Esse grupo questiona não só o direito de votar, mas também todas as pautas que garantem autonomia, proteção e igualdade às mulheres. E, cada vez mais, essa ideologia avança e chega ao Brasil, difundida por agremiações religiosas e grupos com ligações internacionais.

Por trás da pergunta “para que votar?” está uma visão muito clara: para esses setores, a mulher é um ser inferior, que precisaria da tutela de um homem, que não entenderia de política e não saberia fazer escolhas. O argumento que usam é o de que “estatisticamente as mulheres não sabem votar”, apenas porque muitas optam por candidatos e propostas progressistas. E vão ainda mais longe: direcionam críticas específicas às mulheres solteiras e sem filhos, como se apenas a condição de casada e com descendência lhes desse algum valor.

Durante muito tempo, a extrema direita tentou camuflar esse pensamento com palavras amenas e declarações de respeito à “família tradicional”. Mas, com os últimos acontecimentos, essa máscara caiu de vez. Mesmo que tentem amenizar os danos ou colocar figuras femininas à frente para falar com outras mulheres — estratégia já usada por Jair Bolsonaro ao longo de sua trajetória —, a essência da visão continua a mesma.

1932

É importante lembrar que esse direito foi conquistado com muita luta e resistência. No Brasil, as mulheres passaram a ter o direito ao voto em 1932, após décadas de mobilização e pressão social, rompendo com uma tradição secular que as excluía de todas as decisões coletivas. Essa conquista não representou apenas a ampliação do eleitorado: significou o reconhecimento oficial de que mulheres são cidadãs plenas, capazes de decidir os rumos do país em igualdade de condições com os homens.

Independentemente de diferenças ideológicas, defender que mulheres tenham exatamente os mesmos direitos políticos que os homens deveria ser um compromisso básico de qualquer democracia. Questionar o voto feminino é, na prática, questionar um dos pilares da igualdade e da própria cidadania.

As mulheres brasileiras conquistaram seu espaço na política, no mercado de trabalho, nas universidades e em todos os setores da sociedade ao longo de gerações de organização e resistência. Esse caminho nunca foi fácil nem gratuito. A democracia só existe plenamente quando todos os cidadãos têm voz — e essa voz não pode depender do gênero, do estado civil, da religião ou da autorização de qualquer outra pessoa.

A ameaça, portanto, vai muito além de apenas querer revogar um direito: por trás desse discurso está o desejo de manter a mulher em uma posição de submissão. Sonham com a mulher que não tem voz própria, que só se expressa por meio da decisão do marido ou do pai. Mas parece que ainda não entenderam: as mulheres brasileiras já saíram há muito tempo desse lugar. Lutaram, conquistaram seus direitos e não voltarão mais para trás.

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