Professores não são
“desconhecidos”
A retórica da extrema-direita brasileira ganhou mais um capítulo de profundo desrespeito aos trabalhadores da educação.
Nikolas Ferreira durante discurso sobre homeschooling
Ao defender a regulamentação do homeschooling (ensino domiciliar), o deputado federal Nikolas Ferreira escolheu um caminho que já se tornou marca registrada de parte da direita brasileira: atacar professores.
Ao afirmar que pais entregam seus filhos “nas mãos de um desconhecido” quando os matriculam em uma escola, o parlamentar não apenas desqualifica uma categoria profissional. Ele ofende milhões de educadores que dedicam suas vidas à formação intelectual, social e humana das novas gerações. Para justificar uma modalidade de ensino, não deveria ser necessário destruir a imagem daqueles que fazem a educação acontecer diariamente.
A fala é especialmente grave em um país onde professores enfrentam salários insuficientes, sobrecarga de trabalho, falta de estrutura, violência dentro e fora das escolas e constante desvalorização social. São profissionais que, muitas vezes, tiram dinheiro do próprio bolso para comprar materiais, enfrentam jornadas exaustivas e assumem responsabilidades que vão muito além do ensino de conteúdos. Ainda assim, seguem sendo tratados por parte da classe política como inimigos ideológicos.
O discurso de Nikolas não surge no vazio. Há anos, setores da direita conservadora tentam construir a imagem do professor como um agente de “doutrinação”, alguém que estaria supostamente ameaçando os valores familiares. Trata-se de uma narrativa conveniente para quem prefere transformar educadores em alvos políticos em vez de discutir os verdadeiros problemas da educação brasileira: a falta de investimento, a evasão escolar, a precarização da carreira docente e as profundas desigualdades de acesso ao ensino.
O problema é que a realidade desmonta esse discurso.
Segundo estudos e análises reunidos pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, a escola exerce funções que vão muito além da transmissão de conteúdos acadêmicos. O ambiente escolar é um espaço de convivência com a diversidade, de desenvolvimento emocional, de aprendizado coletivo, de construção da cidadania e de formação das habilidades necessárias para a vida em sociedade. A escola também atua como uma importante rede de proteção para crianças e adolescentes, identificando situações de violência, negligência, abandono e outras vulnerabilidades que muitas vezes permanecem invisíveis dentro do ambiente doméstico.
Reduzir professores à condição de “desconhecidos” é ignorar deliberadamente tudo isso. Mais do que ensinar matemática, português ou ciências, professores ajudam a formar cidadãos. São eles que apresentam diferentes perspectivas, estimulam a curiosidade, incentivam a pesquisa e mostram aos alunos que o mundo é maior do que suas próprias experiências individuais. É justamente essa pluralidade que incomoda determinados grupos políticos.
A escola representa um dos poucos espaços onde crianças e jovens entram em contato com diferentes ideias, culturas, histórias e realidades sociais. É onde aprendem a questionar, argumentar, refletir e construir pensamento crítico. E não é difícil entender por que isso incomoda setores que preferem uma população menos questionadora e mais suscetível à manipulação ideológica.
A verdade é que o conhecimento sempre foi um instrumento de emancipação social. A educação permite compreender as estruturas de poder, analisar processos históricos e identificar injustiças que muitas vezes são naturalizadas. Uma população que lê, pesquisa, compara informações e desenvolve pensamento crítico torna-se menos vulnerável a discursos simplistas e narrativas fabricadas para consumo político.
Por isso, não surpreende que parte da extrema-direita mantenha uma relação tão conflituosa com professores, universidades, pesquisadores e instituições de ensino. Afinal, o estudo revela contradições. O estudo desmonta mentiras. O estudo confronta versões distorcidas da história. O estudo produz cidadãos capazes de questionar aqueles que ocupam posições de poder.
Quando parlamentares atacam professores para defender o homeschooling, a discussão deixa de ser apenas educacional e passa a ser ideológica. O objetivo não é simplesmente ampliar opções para as famílias. O que se observa é uma tentativa recorrente de enfraquecer a credibilidade da escola pública e de seus profissionais, transformando educadores em adversários políticos.
Professores não são “desconhecidos”. São trabalhadores qualificados, formados para exercer uma função essencial à sociedade. São orientadores, mediadores, pesquisadores, conselheiros e referências para milhões de estudantes brasileiros. São pessoas que ajudam a construir projetos de vida, despertam vocações e oferecem perspectivas de futuro para crianças e jovens de todas as classes sociais.
O debate sobre homeschooling pode e deve existir dentro de uma democracia. O que não pode ser normalizado é o ataque permanente a uma categoria profissional que já enfrenta desafios gigantescos para cumprir sua missão.
Defender a educação domiciliar não exige atacar professores.
Mas atacar professores parece ser uma escolha conveniente para quem teme exatamente aquilo que eles promovem todos os dias: conhecimento, reflexão e pensamento crítico.
Porque sem professores não há educação de qualidade. Sem educação de qualidade não há cidadania plena. E sem cidadãos capazes de pensar criticamente, questionar autoridades e compreender a realidade ao seu redor, a própria democracia sai enfraquecida.
Quem realmente se preocupa com o futuro das crianças brasileiras deveria começar valorizando aqueles que dedicam suas vidas a ensiná-las.
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