O Brasil tem um dos maiores índices de cesariana do mundo. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as cirurgias representem entre 10% e 15% dos partos, os dados mais recentes mostram um quadro bem diferente no país. Para enfrentar esse cenário — e combater a violência obstétrica —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, em 8 de abril de 2026, a lei que regulamenta a profissão de doula em todo o território nacional.
A medida não teve vetos, foi aprovada integralmente e representa uma vitória de anos de mobilização de mulheres e profissionais da saúde. Mas o que isso significa, na prática, para quem está grávida ou pretende ter filhos?
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, chamou esse cenário de “indústria da cesárea”: um sistema em que a logística hospitalar — e não a necessidade médica — acaba determinando o tipo de parto. Maternidades que só realizam partos em dias específicos, dependendo da disponibilidade do anestesista, são um exemplo citado pelo próprio ministro.
A regulamentação das doulas entra como parte da resposta do governo a esse problema estrutural e ao combate à violência obstétrica.
A doula é uma profissional de apoio — não de saúde — que acompanha a gestante antes, durante e depois do parto, oferecendo suporte emocional, físico e informacional. Ela não substitui médicos, enfermeiros ou obstetrizes: seu papel é humanizar a experiência do nascimento e dar à mulher mais segurança e autonomia no processo.
- Informações baseadas em evidências científicas sobre gestação e parto
- Incentivo ao acompanhamento pré-natal
- Apoio emocional e preparação para o nascimento
- Orientação sobre posições confortáveis
- Técnicas de respiração e vocalização
- Massagens, banhos mornos e compressas para alívio da dor
- Presença contínua e apoio emocional
- Apoio aos cuidados com o recém-nascido
- Orientação no processo de amamentação
- Acolhimento emocional da mãe
- Realizar procedimentos médicos, de enfermagem ou fisioterapêuticos
- Usar ou manusear equipamentos médico-assistenciais
- Administrar medicamentos
- Interferir nos procedimentos dos profissionais de saúde
A principal mudança prática é a garantia legal de que qualquer gestante pode ter uma doula ao seu lado durante o trabalho de parto, o parto e o pós-parto imediato. Nenhum hospital ou maternidade poderá recusar a entrada da profissional, e nenhuma taxa adicional poderá ser cobrada pela instituição por causa da presença dela.
Isso vale tanto para a rede pública (SUS) quanto para a rede privada. A escolha da doula é exclusivamente da gestante e não cancela o direito ao acompanhante (familiar ou pessoa de confiança) já garantido pela legislação anterior. A lei também abrange todos os tipos de parto — incluindo casos de intercorrências e situações de abortamento.
“A gente entra na sala de parto apavorada, não sabe o que vai acontecer. A doula vai acalmando, vai conversando, vai dialogando. É uma lei que, de fato, humaniza e enfrenta a violência obstétrica.”
Ministra das Mulheres, Márcia LopesA nova lei estabelece critérios claros para quem quer atuar como doula no Brasil. O objetivo é garantir formação mínima de qualidade para todas as profissionais da área.
Diploma de ensino médio completo
Curso de qualificação em doulagem com carga mínima de 120 horas
Precisam ser revalidados no Brasil para ter validade legal
Quem exerce a atividade há mais de 3 anos, com comprovação, pode continuar atuando normalmente
2021
PL 3.946/2021 apresentado pela então senadora Mailza Gomes, atendendo reivindicação histórica de doulas e movimentos de mulheres
Março de 2026
Câmara dos Deputados aprova o projeto após passar pelo Senado Federal
8 de abril de 2026
Presidente Lula sanciona a lei integralmente, sem vetos, em cerimônia no Palácio do Planalto
O governo indicou que um projeto paralelo, ainda em tramitação no Congresso Nacional, deve regulamentar a profissão de parteira tradicional — completando um conjunto de medidas para humanizar o atendimento às gestantes em todo o Brasil.
O Ministério das Mulheres informou que o objetivo a médio prazo é avançar para incluir doulas no SUS e ampliar a formação pública por meio de escolas técnicas e de saúde pública, para que todas as mulheres — independentemente de renda — tenham acesso ao suporte dessas profissionais durante um dos momentos mais importantes de suas vidas.
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