Lula é reconhecido mundialmente como um estadista habilidoso, capaz de articular bons acordos internacionais e dar protagonismo ao Brasil. No discurso de terça-feira na ONU, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou ter sentido uma “química excelente” com o presidente brasileiro após uma rápida interação entre eles. No dia seguinte, Lula respondeu: “fiquei feliz quando ele disse que pintou uma química boa entre nós. Eu acho que pintou uma química mesmo”, completou.
Embora diga estar se preparando para que ninguém o engane, o risco é que, ao tentar equilibrar críticas e gestos de cordialidade, Lula abra espaço para ser usado como peça em um jogo que não interessa ao Brasil. Reconhecer a importância do diálogo internacional não deve significar troca de elogios com um presidente autoritário que, sempre que pode, opina sobre como o Brasil deve tratar e julgar ex-mandatários que atentaram contra a democracia.
É verdade que Lula conta com uma equipe preparada, capaz de evitar armadilhas futuras que Trump possa montar, mas o atual cenário diplomático exige cautela redobrada. A política de “morde e assopra”, feita de elogios públicos seguidos de pressões veladas, pode parecer sedutora em relações internacionais, mas é uma faca de dois gumes.
O episódio envolvendo Trump e líderes como o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, é um alerta. Antes de encontrá-lo, Trump lançou uma série de declarações ambíguas, usando segurança e ajuda estrangeira como forma de pressão, deixando Zelensky politicamente fragilizado e, em seguida, impondo condições que o humilharam diante da comunidade internacional. Esse jogo de poder deixou claro quem ditava o ritmo do diálogo e quem ficava manietado.
Ao trilhar caminho semelhante, Lula precisa estar ciente de que elogios podem abrir margem para expectativas de concessões que comprometam soberania ou coerência política. A diplomacia de agrados imediatos pode gerar boa impressão, mas frequentemente vem acompanhada de cobranças ou agendas impostas que implicam renúncias estratégicas. Vale lembrar que o mundo observa tanto os discursos quanto os bastidores: oscilações entre elogios públicos e críticas veladas projetam imagem de indecisão, explorável por adversários e prejudicial à credibilidade internacional.
O presidente brasileiro deve calibrar cada passo. Apesar de sua reputação de ótimo estadista, respeitado no cenário global, é essencial evitar ceder ao charme ou à chantagem velada que acompanha o flerte diplomático com Trump, que flerta abertamente com um governo autoritário. A diplomacia exige firmeza e clareza de limites, sob o risco de que, no feitiço da cordialidade, se perca algo muito mais valioso do que a boa aparência internacional: a soberania do Brasil e a coerência de um projeto progressista.
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